Os Aspectos Econômicos da Crise
Tendo em vista a origem financeira da atual crise econômica internacional, observa-se que os governos, de maneira geral, optaram por adotar, inicialmente, esforços mais vigorosos no âmbito fiscal e creditício. Os bancos centrais têm atuado de
forma intensa. Num primeiro momento, em função das perdas envolvendo operações subprime e, posteriormente, para restabelecer a confiança no sistema financeiro. Os bancos centrais dos EUA (FED), da área do Euro (BCE), do Japão (BoJ), a Austrália (RBA) vêm injetando grandes quantias de recursos no mercado monetário, em função do acirramento das incertezas. Foi constatado, também, o avanço do ciclo de reduções na taxa básica de juros norte-americana, seguida por outros países. Tudo isso contribuiu para arrefecer a crise financeira, sem impedir que ela fosse contaminando as instituições financeiras e a própria economia real.
A manifestação da
atual crise econômica internacional teve origem na esfera financeira. Entre 1970
e 2007 foram contabilizadas 124 crises bancárias sistêmicas, 208 crises cambiais
e 63 episódios de não-pagamento de dívida soberana. Esses indicadores
representam três crises bancárias, cinco crises cambiais e quase dois eventos de
não pagamento de dívida soberana por ano 2. Em 2007, a crise internacional
atingiu os EUA. A partir do final de 2008 os efeitos se tornaram mais
contundentes e recessivos. O ano de 2009 começa com a previsão de decréscimo do
comércio mundial, o primeiro desde 1982 e possivelmente o mais profundo desde a
Grande Depressão. Compreender a manifestação da atual crise econômica de múltiplos países, cuja origem encontra-se na derrocada do mercado de hipotecas
subprime em 2007 é fundamental. A crise produziu efeitos de contágio sobre as
principais praças financeiras do mundo e demandou ações de política econômica de
múltiplos países, para tentar conter os impactos sobre o sistema produtivo. Há
fatores tanto macroeconômicos quanto microeconômicos que explicam a origem da
crise financeira nos Estados Unidos. Entre os fatores macroeconômicos, pode-se
citar o período prolongado de baixas taxas de juros vivido recentemente, que
contribuiu para evitar uma recessão após os atentados de 11 de setembro,
permitiu a expansão de crédito e impulsionou a demanda interna. Por outro lado,
deu fôlego para um ciclo de alta dos preços dos imóveis. A concessão de crédito
tornou-se mais favorável, passando a aceitar um nível maior de risco.
Assim, a crise do mercado de hipotecas subprime teve início, por sua vez, com o boom do mercado imobiliário. As operações subprime caracterizavam-se por: empréstimos de longo prazo, em geral de 30 anos, divididos em dois períodos distintos. Nos dois ou três primeiros anos, as taxas de juros eram fixas e relativamente baixas. Já no período seguinte, que seguia até o final do contato, as taxas de juros eram mais elevadas e reajustadas periodicamente com base em taxas praticadas pelos bancos. No segundo período, os mutuários começavam a apresentar problemas de pagamento. Com os preços dos imóveis em alta, estes tomadores de crédito ainda conseguiam renegociar o contrato, pagando uma boa comissão para o banco emprestador que lhes concedia crédito extra para financiar gastos em consumo.
No entanto, esta situação começou a mudar quando a demanda por imóveis residenciais começou a desacelerar. A partir daí, as condições de refinanciamento tornaram-se mais difíceis e em função do aumento das despesas com empréstimos e do
não pagamento das prestações. A inadimplência do subprime subiu rapidamente e o não pagamento de empréstimos imobiliários residenciais cresceu de forma geral, passando de 2,1% no primeiro trimestre de 2007 para 5,1% no terceiro trimestre de 2008. Quando a inadimplência no segmento subprime começou a se elevar, vários agentes financeiros foram contaminados, pois elas serviam de lastro para operações de securitização.
Kieran Allen escreveu
recentemente um extenso artigo sobre a atual crise financeira mundial. Sua
primeira frase sobre o tema foi a seguinte: "A maioria das pessoas estão
surpreendidas por testemunhar uma nova crise em Wall Street, já que o espetáculo
da crise de 1929 parecia ter desaparecido para sempre."
Durante os últimos trinta anos renomados economistas alegavam que o mercado
funcionava perfeitamente já que não havia forte interferência estatal ou ações
de fortes sindicatos. "Você não pode apressar-se no mercado" foi repetido como
um mantra contra qualquer pessoa que se atrevesse a solicitar salários mais
elevados, melhores controles do ambiente ou de um Estado social mais
desenvolvido. "As forças do mercado" foram vistos como sábios agentes que
conheciam bem os modos de lidar e de operar sobre a economia. Ninguém sabia
exatamente quem ou o que eram estes agentes , mas eles apareciam para trabalhar
anonimamente nos bastidores para fazer com que tudo desse certo. Em quase todos
os países, as pessoas foram orientados a deixar esses assuntos para "as forças
do mercado" e não buscar uma demasiada regulamentação. Na realidade, estas
"forças do mercado" foram gigantescas casas financeiras que poderiam passar
dinheiro ao redor do mundo à vontade. Hoje essa mitologia foi despedaçada.
Recentemente, chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Khan, alertou que o impacto da crise financeira global ainda não atingiu totalmente a economia real. "O problema é que o efeito na economia real, na sua maior parte, ainda está por vir", disse ele ao IMF Survey, uma publicação online interna do Fundo. "O ano de 2009 certamente será um ano pior para o crescimento, não somente para as economias avançadas, mas também para as economias emergentes".
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